Em certos momentos sentimos a dor de não ser amados, de ser rejeitados, de ter sido abandonados ou maltratados pelos mais próximos. Em outros, uma desilusão amorosa ou os conflitos dentro do nosso próprio lar.
Texto: Pe. Benedito Ângelo Cortez, mSC
Estamos de volta e queremos continuar aprendendo as lições que brotam do Coração de Jesus. Em nosso primeiro e modesto artigo, falamos que nosso desejo, através dessa revista, é levá-los a ter um encontro cordial com Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, voltamos com mais alguns pensamentos que poderão ajudar-nos em nossa oração e experiência de vida. O que queremos é, com você, contemplar esse Divino Coração e seus segredos de amor e de esperança. Convido-os, agora, a refletir sobre uma lição extraordinária que Jesus nos deu quando se fez Carne e habitou entre nós e, principalmente, no silêncio da Cruz, quando a carne ferida se fez também Palavra de Salvação, “transformando os obstáculos em meios”. Voltemos nossos olhos da fé para Aquele que foi traspassado.
Quantas vezes não nos deparamos com verdadeiros obstáculos, sofrimentos e feridas que nos marcam profundamente. Quantas vezes carregamos por toda nossa vida uma dificuldade, uma dor, um obstáculo terrível que só nos faz padecer, viver com amargura e perder nosso foco existencial que é caminhar, atraídos pela fé no Ressuscitado, em busca do Amor infinito. Em certos momentos sentimos a dor de não ser amados, de ser rejeitados, de ter sido abandonados ou maltratados pelos mais próximos. Em outros, uma desilusão amorosa ou os conflitos dentro do nosso próprio lar. Quantos não padecem uma vida toda porque a doença o feriu gravemente ou deixou sequelas profundas? Muitos de nós padecemos, principalmente nos dias de hoje, do mal de se sentir solitário, depressivos, abandonados e sem ninguém ao nosso redor? Enfim, todos nós carregamos certas feridas, sejam afetivas, psicológicas, físicas.
Mas por que deixamos que a ferida seja a tônica de nossa vida, ou melhor, de nossa morte homeopática? Porque permitimos que a morte continue devorando nossa esperança, se ela foi derrotada por Cristo na Cruz? Não, não podemos permitir que a morte e o pecado do desânimo e do conformismo sejam as bandeiras de nossa existência. O fundador dos Missionários do Sagrado Coração, Pe. Chevalier, lapidou um pensamento que nos ajuda a entender uma lição extraordinária que brota da pedagogia do Coração ferido de nosso Redentor na Cruz: “quando Deus quer uma obra, os obstáculos se transformam em meios”. Isso mesmo! Essa é a lição do Coração traspassado de Jesus: transformar a morte em vida, a dor em esperança de amor, a ferida em fonte.
Humanamente, Jesus poderia ter se tornado vítima passiva do sofrimento que lhe foi imposto. Suas dores poderiam não ter servido para aliviar as nossas. Seus sofrimentos teriam se reduzido apenas a ressentimentos sem sentido; revolta e autopiedade que O tornariam o ser mais digno de pena e nossa fé num absurdo. Mas de modo nenhum! O segredo de sua vitória está justamente naquilo que parecia um obstáculo sem fim. Aquilo que poderia ser apenas uma ferida escancarada num coração moribundo se transformou numa fonte inesgotável de vida e de salvação. De seu coração ferido jorraram água e sangue (Jo 19,31-37). Dessa ferida brotou o manancial do Batismo e da Eucaristia. Eis a dor transformada em amor. Amor que nos regenera e que recria o universo todo. Amor que alimenta e que, na eucaristia, nos revigora. Corpo triturado e sangue derramado. Na moenda da dor seu corpo foi transformado em alimento, em pão vivo. Eis o mistério de nossa fé!
Outro dia, ouvi uma história que, apesar de não ter nenhuma formação para biologia marinha para checar sua veracidade, achei extraordinária e que, talvez, sirva para ilustrar nossa reflexão. Fiquei sabendo que a pequena ostra, isso mesmo, esse pequeno molusco, só produz a pérola quando foi ferida, ainda nova. Lá onde talvez um grão de areia a feriu, a proteção e a resistência de seu organismo produzirão uma das mais cobiçadas joias: a pérola. Somente as ostras feridas produzem pérolas. Transformar os obstáculos em meio. Que lição, hein?!
Deixemos o mundo marinho e voltemos ao nosso cotidiano. Que lições podemos tirar de tudo isso? Creio que contemplando o Coração de Jesus e a nossa vida, iremos descobrir que, graças a Ele, também nós podemos transformar nossas feridas em pérolas e em fonte de vida. Lá onde reside nosso maior obstáculo, nossa maior ferida, pode crer que essa sensibilidade tamanha é devido à fonte que quer vencer os desafios e borbulhar num estrondoso manancial de vida.
Prestemos mais atenção em nossa vida e naquilo que pode ser nosso maior obstáculo, mas sempre com o olhar fito no Coração de Jesus, pois, muitas vezes, só como Tomé (Jo 20,24-29), é botando o dedo na ferida que vamos acreditar que esses sinais de dor apontam para o transcendente, para a ressurreição e para a certeza de que esses obstáculos são apenas meio e não fim!
Pe. Benedito Ângelo Cortez, mSC é Superior da Província de São Paulo dos Missionários do Sagrado Coração