Texto: Fr. Fernando Clemente, mSC
O que se pretende ver quando se vai a Aparecida?
Não sei se vai ver uma fonte milagrosa onde mergulham os enfermos para da água saírem sãos, como em Lourdes. Tampouco se vai ao encontro de revelações maravilhosas sobre o futuro e sobre o presente, como em Fátima. Também não se tem notícia de quem vá a Aparecida esperando ouvir o choro da Mãe de Deus pelos pecados da humanidade, como em La Salette… Se não se vai a Aparecida em busca disso tudo, afinal, o que se vai buscar quando nos dirigimos a este lugar santo? O que há ali, de tão extraordinário, que possa atrair tanta gente?
Recordo-me que, certa vez, ao visitar o Santuário Nacional com um grupo de peregrinos estrangeiros, diante da magnitude da basílica, eles buscavam afoitos o nicho onde se encontra a imagem enegrecida da Virgem. Ao encontrarem-na, não puderam deixar de demonstrar certo desapontamento: “Como é pequena a Virgem!…”
Talvez seja precisamente este o motivo que leva tanta gente, todos os anos, a Aparecida: a pequenez da Virgem. De fato, impressiona que uma imagem tão pequena, de material tão pobre – barro! – possa movimentar tantos peregrinos até o Vale do Paraíba. A grandeza de sua casa chega mesmo a contrastar com as dimensões diminutas da imagenzinha em seu magnífico trono. Certa estava Maria, ao proclamar que sua alma glorificava a Deus, porque “ele viu a pequenez de sua serva” (Lc 1, 48). Sua profecia estava correta: todas as gerações continuam a proclamá-la santa. Assim, Aparecida torna-se uma grande lição de Evangelho. Ensina como aquilo “que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Cor 1, 25), ou ainda, para usar as palavras da própria Virgem, como Deus “depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou.” (Lc 1, 52).
Assim parece ser. A Deus não importam os grandes feitos, as apoteoses quase carnavalescas que às vezes montamos em nossa vida, esperando nelas encontrar a presença de Deus. Pessoalmente, acredito que se Deus tivesse um sobrenome, seria “Sutileza”. Elias soube mais que ninguém deste atributo do Senhor. Ao procurá-lo sobre o monte, não o encontrou no furacão, nem no terremoto, tampouco no fogo: Deus é brisa suave, discreta… quase imperceptível. Há que se ter o coração atento ao seu murmúrio. (Cf. 1 Rs 19) Com efeito, naquele final de tarde de outubro de 1717, muito pouca gente importante veio a saber do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição, chamada Aparecida, pois apareceu das águas. Maria deixou-se encontrar por pescadores, gente comum do povo, como ela mesma foi.
As obras de Deus parecem ter uma característica comum: a humildade. Tal como no Natal de Jesus, vemos que o anúncio do anjo dirige-se aos pastores para que vão até Belém adorar o salvador (Cf. Lc 2,10), igualmente a perfeita discípula de Jesus vai ao encontro de pescadores e com eles vai dividir a vida e o teto. E mais. Num período em que grassava a crueldade da escravidão, submetendo milhares de africanos e africanas a condições sub-humanas, a Virgem aparece enegrecida…Quase um símbolo eloquente que diz: “Estou aqui, me ponho ao lado de vocês, os mais fracos”. E hoje a situação não difere muito de antes. Basta observar as pessoas que costumam ir ao Santuário Nacional. São pessoas comuns, membros das classes mais simples, trabalhadores e trabalhadoras que, por terem o coração voltado para a realidade humilde do Evangelho, sabem olhar além e ver a ação de Deus na vida humana. Pois Aparecida ensina o mistério de como Deus age na fraca realidade humana.
O barro com que foi modelada a imagenzinha de Aparecida não difere do barro de que é feito o homem mencionado na Escritura (Cf. Gn 2, 7). Sinal perfeito da fragilidade que nos constitui, mas que é amada por Deus e por ele valorizada. Maria, em sua vida terrestre, caminhou por todos os caminhos que caminha toda a humanidade, sem esquecer-se jamais d’Aquele que a habitou e a cujo serviço ela se pôs. Aparecida nos mostra que a ação de Deus não prescinde da nossa humanidade muitas vezes contraditória, mas que dela faz uso, como um pintor que dispõe dos mais diversos tipos de pincel para o seu trabalho. Pinceis nem melhores nem piores, se comparados uns com os outros, apenas diferentes, mas usados para o mesmo fim: expressar em cores a beleza que o artista traz no peito.
Deus deseja salvar. E isto Aparecida também nos ensina. Se ao chegar à basílica não se vê fonte milagrosa alguma a olho nu, temos a oportunidade de lá encontrar uma fonte maior e mais perfeita. A fonte da salvação na qual somos chamados a mergulhar, e dela beber, a transbordar e canalizar suas águas para nossas vidas. Salvação que foi proclamada por Maria em seu canto, e manifestada em sua vida. Salvação aberta a todos os que se dispõem a ter um coração de pobre, confiante em Deus e solidário para com o próximo.
Pois Aparecida é o triunfo dos pequenos, símbolo de uma realidade futura em que os mansos e humildes de coração herdarão a terra. Neste espírito, diante da pequena imagem celebramos todos os dias a Eucaristia, festa e banquete que antecipa a alegria do Céu onde não há melhores nem piores, mas Cristo será tudo em todos. Antecipamos com Maria, em Aparecida, o desejo de sermos todos pequenos como ela, diante do Pai. Filhos como o Filho que ela trouxe no ventre, irmãos entre irmãos, no Reino daquele que só pode amar…
Fr. Fernando Clemente, MSC, é seminarista e atualmente cursa Teologia.