Ao esmaecer do sol, crepúsculo envolvente, sigo caminhando pelas ruas de um conjunto de casas populares dentro dos limites de nossa paróquia. Ao meu lado um fiel ministro da Eucaristia, da etnia Tukana que atende pelo patrístico nome de Siríaco. As ruas do bairro denunciam a realidade sofrida e desassistida das pessoas que aqui vivem. Há por todos os lados poucos sinais de limpeza, organização e saneamento básico. Com passos cadenciados, vamos visitando os enfermos, os frágeis e vulneráveis deste lugar.
Numa das casas, um cenário chama a atenção. O silêncio parece uma abadia cartuxa. Após insistirmos, uma voz frágil convida-nos a entrar. Empurramos a porta lentamente. Passos brandos, vamos descobrindo o ambiente. Uma minúscula sala nos coloca num outro cômodo onde encontramos a origem da voz que nos chamava. Numa rede, armada a uma altura mínima do chão, está uma debilitada senhora. À sua direita há uma cuia com água; à esquerda outra, com farinha. Junto delas, uma terceira onde ambas as espécies são misturadas, formando o que aqui chamamos de xibé. Observando aquela senhora, vejo uma desgastada imagem de Maria ao pescoço, sinal da tradição cristã destes povos. Incomodado pela altura da rede, logo percebo que é para facilitar a descida da anciã, pois já não anda e tem que arrastar-se até o banheiro da casa e demais cômodos .
A sensação de solidão é palpável. Conversando com ela, descubro que as filhas todas já se casaram e não há ninguém – por ingratidão e/ou omissão – que possa viver com ela. Existe, contudo, uma filha que, ao raiar do dia, vem encher as cuias com água e farinha e parte para a roça com seu aturá e terçado em riste. O decorrer do dia aquela mulher passa sem companhia alguma. Apenas Deus, assegura ela. As necessidades mais elementares para qualquer pessoa tornam-se complexas, tudo é feito arrastando-se pelo chão da casa.
Paulatinamente, sua combalida voz vai denunciando traços de uma religiosidade intensa. A devoção filial à Virgem Maria nutre sua confiança em Deus. Seu olhar profundo, penetrante e, por vezes, perdido no horizonte revela uma confiança fiducial no Infinito, no transcendente, num Deus que é uma beleza tão antiga e tão nova. Seu sorriso tímido e discreto, revela que, não obstante a situação adversa, há uma felicidade em continuar vivendo.
Após a conversa, cumpro a minha missão: Ouço sua confissão e dou-lhe a Eucaristia. Despedimo-nos e retornamos para casa, desta feita com passos apressados, mas com o coração intimamente ligado ao daquela mulher. Como não rememorar aquela situação, como não pensar em sua vida solitária? Deus, contudo, consola-me e faz entender que solidão é, como diz o poeta, “quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa Alma”. Isso, acredito, certamente não é a situação daquela mulher que se sente
visceralmente ligada a Deus.
Pe. Reuberson Ferreira,mSC trabalha no Alto Rio Negro, Diocese de S. Gabriel da Cachoeira (AM).