Revista de Nossa Senhora
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Maria, Mulher

Publicado em 6 de fevereiro de 2012 / Edições > Fevereiro - 2012 >

Você, caro leitor ou leitora, que tem essa revista nas mãos, faça a gentileza de responder a esta minha pergunta: você conhece alguma coisa mais bela, mais inspiradora, mais impressionante do que a Criação? Não? Pois é. Nem eu.

Um exemplo, só para ilustrar. Poucas coisas neste mundo me deixam tão extasiado como o amanhecer. O ar fresco da manhã, a cidade que acorda… A luz dourada vai lentamente transfigurando tudo. Mistério da vida: que será do dia de hoje? Fazemos uma prece, é Deus quem cuida de nós. Então saímos para a rua, rumo ao trabalho, à escola ou ao lugar que for. Vemos as pessoas, algumas tristes, outras tantas eufóricas. No ônibus a mulher grávida senta-se e acaricia a barriga como se pensasse em como serão os olhos, o nariz de sua criança: “Com quem se parecerá?”. Homens riem tomando café na padaria, alimentando-se de amizade; uma senhora esbraveja no ponto de ônibus: o motorista não a viu dar o sinal e passou direto. A vida pulsa em cada canto, em cada canto um louvor, mesmo silencioso, Àquele que criou isso tudo. A vida é maravilhosa e ser humano é um prazer quando se vive em plenitude. Realmente, Deus é um artista de mão cheia. A vida humana prova isso.

Parece que quem escreveu o livro do Gênesis partilhava dessas mesmas sensações. Ao colocar por escrito a inspiração divina, no belo poema que relata as origens do nosso mundo, contemplamos o Senhor trabalhando: “Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra’. Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou. (…) Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom.” (Gn 1, 26-27. 31).

Era muito bom e continua sendo! Deus ama apaixonadamente este mundo e tudo o que há nele. Um cristão dos primeiros séculos da Igreja, Isaac de Nínive, em seu tempo já costumava dizer que “Deus só pode amar. Deus é ternura!”. E esse amor vai tão longe e tão profundamente que ousa lançar-se nos braços da humanidade! Como a criança se joga nos braços do pai, porque tem certeza de que o pai irá segurá-la, O Filho de Deus lança-se nos braços da nossa humanidade. O próprio Senhor faz-se humano, sem deixar de ser Deus.

Mas de onde vem isso? Que amor é esse? Bom, meditando a Palavra de Deus, parece que não somos os únicos a querer entender essa paixão sem limites, que aos nossos olhos pode até parecer exagerada, uma vez que erramos tanto… “Quando vejo o céu, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que fixaste, pergunto-me: que é o ser humano, para dele te lembrares, e um filho de Adão, para que venhas visitá-lo? E o fizeste pouco menos do que um deus, coroando-o de glória e beleza”. (Sl 8, 4-6)

O amor tem dessas loucuras. Quando amamos, nos entregamos completamente, ficamos vulneráveis. Estranha lógica essa, mas, como dizia Pascal, filósofo francês do século XVII, “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. Deus, ao fazer-se homem, assume um coração humano. Como compreender suas razões? Não se compreende. O mistério que se encerra nesse acontecimento não se explica; simplesmente se vive.

Diante de tantas razões para se amar a humanidade, fico impressionado com a quantidade de gente que, às vezes, até em nome da religião, parece desprezar tudo que é humano, como se tudo que dissesse respeito ao corpo e ao mundo fosse mau. É bem verdade que frequentemente nos desviamos da nossa vocação de filhos de Deus e nos esquecemos de que, sendo filhos do mesmo Pai, somos irmãos. E daí surgem os desentendimentos, ódios, guerras e assassínios. Mas essa não é nossa natureza, é fruto de um ambiente, de uma situação. “Deus viu que tudo era bom”, criou-nos à sua imagem. Enfim, em duas palavras, somos bons!

Mas vamos agora olhar para Maria, razão deste artigo.

Ao vermos a bondade com que Deus nos cria e a maldade de que somos capazes, pode ser que a gente pense que existe uma contradição nisso. Porém, se olhamos para a Maria, entendemos perfeitamente que não há contradição, mas uma cooperação. Uma cooperação que deve haver entre nós e a vontade amorosa de Deus. Ele não pede que sejamos super-homens e super-mulheres. Quer apenas a nossa felicidade seguindo a sua vontade. Mesmo fracos, ele vem em nosso socorro. E Maria entendeu isso, veja só: “Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva. Agiu com a força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias.” (Lc 1, 46-48. 51-53). Deus não escolhe os mais ricos, os mais inteligentes, os mais poderosos. Escolhe os mais simples, os que estão dispostos a ouvir sua vontade e colocá-la em prática. Escolhe aqueles que, apesar de suas fraquezas e contradições, ousam lançar-se no seu seguimento, colocando toda sua esperança em Deus. Ele sabe que nossa natureza humana é fraca, mas a ama mesmo assim!

Incoerências todos nós temos. Nem sempre somos fiéis. Mas isso não é motivo para desespero. Fala-nos a Palavra de Deus em resposta. Abrindo a Bíblia, encontraremos pecados em Adão, em Moisés, em Davi, nos demais reis de Israel. Veremos erros nos Apóstolos, deslizes em Pedro e Paulo. Isso fez deles pessoas más? Não. Porque confiaram que não existe santo sem passado, nem pecador sem futuro. Todos pecamos e podemos contar com a Graça. E a experiência de Deus passa justamente pelas nossas fragilidades, pelos nossos erros. Foi o próprio Paulo a dizer esta lição: “com todo o ânimo prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que pouse sobre mim a força de Cristo. Por isto, eu me comprazo nas fraquezas, nos opróbrios, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte. (2 Cor 12, 9-11). O mais importante é, ainda que haja erros, não desistir de tentar acertar, sempre. Este é o segredo do caminho da santidade.

É bem verdade que cremos que Maria foi agraciada por nascer sem pecado original. Mas isso não fez dela uma deusa, ou seja, ela continuou humana, com todas as dificuldades da vida diária que todos nós temos. Mas a sua disposição em fazer a vontade de Deus a torna impossível de ser ignorada. Mais que ninguém ela foi exemplo de confiança, assumindo o risco de apresentar-se a José, grávida, sem ser ele o pai da criança. Precisou confiar em Deus diante da perseguição de Herodes e tantas outras vezes.

E nós, tantas vezes nos queixamos quando sentimos o Espírito apontar em nossa vida o que o Pai nos pede. Às vezes é um serviço na Igreja, outras tantas é um apelo de reconciliação com alguém, ou mesmo o deixar de calar-se diante de uma injustiça. Dizemos que somos pecadores demais para assumir um compromisso, e até achamos que não somos amados por Deus por causa de nossos erros… Como se Deus fosse um carrasco que olha mais para nossos erros do que para nossas potencialidades.

Por isso, convido você a ter sempre por perto a imagem dessa mulher magnífica, chamada Maria. Que ela o inspire nos momentos de dificuldade, em que tudo parecer difícil, em que os desafios da vida parecerem intransponíveis. Saiba, ela permanece sempre ao seu lado e à sua frente para o conduzir a Deus. Ela é a amiga, a conselheira, a animadora, a mãe. Mulher igual a todas as mulheres, e ao mesmo tempo toda diferente, pois está embebida de Deus, como um pedaço de pão mergulhado no vinho. Toda de Deus e toda do povo.

Fr. Fernando Clemente, MSC, é Seminarista religioso e cursa o 2º. Ano de Teologia.

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