Hoje vivemos uma situação complexa, onde o novo e o velho, o passado e presente se contradizem, e o futuro aparece como uma incógnita, sem se apresentar com muita clareza aonde tudo vai chegar. É o tempo de luzes e sombras. Andamos com as sombras do passado, e pior, com as sombras do futuro, que vem ao nosso encontro, apesar de não sabermos onde é o caminho. Aqui entra a confiança da resposta dada a Jesus por Tomé, quando este quis saber qual era o caminho e o Senhor lhe respondeu: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. (cf. Jo 14, 5-7). Essa é nossa confiança de seguir em frente quando é Ele que nos conduz pelos prados, campinas e cidades.
SOMBRAS E LUZES
Corremos o risco de viver da herança do passado num tempo onde tudo vai mudando com a rapidez da luz. “Tudo o que foi não será”, diz uma canção. Ante uma historia já vivida, podemos querer repeti-la como a única provada e possível de dar certo; ou, partir para experimentar outras possibilidades e inaugurar o novo. Com a primeira atitude, nosso olhar estaria sempre em manter as coisas como estão, sem adaptação, como um projeto imutável que desde sempre esteve ali. Esquecemo-nos de que um dia tudo foi iniciado e construído lentamente até chegar ao lugar conhecido.
Mas com a mudança do tempo, as necessidades vão sendo outras e a vida vai sendo remodelada de tal maneira que agora tudo necessita ser revisto. Necessitamos de novas maneiras para viver e dar sentido à vida.
Isso se passa com a vida na nossa missão; muita coisa feita anteriormente e com muito esforço, vai ganhando novas configurações. A gente escuta muita gente quando chega a um lugar novo e vai descobrindo os caminhos percorridos e uma serie de dificuldades já superadas que facilitam o caminho hoje. Mas também a dinâmica da vida nos coloca outros desafios que nascem dentro do processo pastoral e a realidade nos convoca à releitura constantemente. Os desafios estão sempre presentes.
MARCOS QUE ATRAVESSAM A REALIDADE
Se um dia a vida foi mais rural, hoje o mundo tem um jeito mais de cidade em todos os aspectos. Não encontramos lugar nenhum que não esteja influenciado pela tecnologia e pelo estilo de vida urbana. O campo e a cidade, hoje, estão cada vez mais parecidos. Em todo lugar, a televisão e os telefones estão presentes. Toda comunidade, seja de periferia, na cidade ou no campo, tudo está conectado à globalização. Ninguém pode se sentir separado ou atrasado com relação à evolução tecnológica. O mundo se urbanizou. As contradições se igualam em todos os níveis.
Mas o que isso significa para evangelização (a missão) e, sobretudo, para a vivencia do Evangelho?
No bairro onde moramos, quase todo mundo que ali vive, veio do “interior”, nos últimos 20 anos. Eles não tinham grandes propriedades, tampouco alguma forma de emprego garantido, o que os empurrou para a periferia da cidade. Naquele tempo, quando o bairro estava se formando, muitos armaram suas casas de madeira e taquara no meio do capinzal, antes das precárias ruas de hoje. Não carregavam nada, a não ser a esperança de vida melhor. Muitos eram recém-casados, por isso seus filhos/as somente conheceram a periferia e suas dificuldades. Os pais ainda traziam muito de suas crenças e sabedorias tradicionais e os filhos nasceram no ambiente de cidade.
Hoje ninguém fala de sair daqui. Dizem-se contentes com a vida e todas as dificuldades são superadas com esforço pessoal, sem nenhuma ajuda das autoridades. Não se identificam mais com o campo, perderam suas raízes religiosas. Muitos ainda carregam os antigos costumes como a bênção da casa quando morre uma pessoa; a confiança na água benta para deixar a casa longe dos maus espíritos, e, sobretudo, a relação familiar tradicional do campo. Mas as coisas seguem mudando porque os descendentes não acompanham os pais na tradição e são quase indiferentes à religião.
O trabalho de evangelização, agora, praticamente é uma situação que implica novas atitudes e busca de caminhos novos. Por isso, é necessário uma ação mais inserida, de menos resultados e com mais sondagem no intuito de saber por onde passam as novas experiências da fé. Numa complexidade que mistura os pais impotentes na condução de seus filhos/as, a entrada sem piedade para o mundo da droga, a inserção no mundo do consumo e uma multidão de novas gerações sem rumo. A evangelização é um tema complexo e difícil, mas cheio de desafios que nos aproximam mais da espiritualidade do caminho.
CONCLUSÃO
Agora, o desafio é transformá-los em experiência de Deus. Não vai ser diferente, mas a vocação exige a profundidade de espiritualidade para encarar as contradições da realidade atual e transformá-la em lugar de experiência do Evangelho.
Hoje, encontramos Jesus nascendo, se encarnando nas novas realidades da vida humana; onde há um sinal de solidariedade está nascendo a presença amorosa de Deus, naqueles que fazem alguma coisa para testemunhar a sua fé. Não é um tema de espetáculo como nos grandes shows religiosos, nem multidões nas procissões. Mas é a experiência religiosa que nos convoca para escutar a presença amorosa de Deus cada vez mais difusa no meio de novas formas de vida.
É o tempo das pequenas iniciativas, de insistir nos pequenos grupos e muita coordenação entre si, senão tudo se perde, fragmentando ainda mais a pouca união que existe. Mas isso dá trabalho e exige paciência.
Pe. Antonio Carlos de Meira, MSC, é missionário no Equador