Quando a comunidade deixa de ser fermento, faz-se necessário o despertar profético de quem permanece vigilante.
INTRODUÇÃO
Aqui queremos refletir sobre nossa caminhada de vida missionária e os desafios que temos diante de nós. Da realidade vem o apelo para que uma voz grite no deserto anunciando uma nova vida em meio aos sinais de morte.
COMUNIDADE PEREGRINA
Uma comunidade missionária sempre deve ser peregrina. Consciência missionária e a idéia de caminho estão sempre juntas. A comunidade sempre vai estar aberta aos novos desafios e às novas realidades quando a escuta da Palavra e o discernimento não estão distantes da vida. No contexto de hoje, esta dinâmica significa estar na contramão da corrente cultural que privilegia o comodismo e a vida fácil. A comunidade discípula é construtora de novos caminhos no meio da realidade difícil em que vivemos,anunciando a Boa Nova de Jesus Cristo.
Fico olhando para centenas de trabalhadores/as e milhares de crianças e jovens que passam nestas ruas do bairro de “San Alejo”, onde vivemos. Apesar da pobreza e da vida difícil que todos/as enfrentam nestas condições subumanas, todos/as que passam se confundem com caminhantes de qualquer outro contexto. Expressam o modo de ser ao estilo de vida da classe media: vida de consumo, busca de comodidade, sentindo-se dentro da moda cultural do momento.
Neste estilo de vida os valores da competição, da ambição e do individualismo sobressaem, criando o sentimento de que na vida prevalecem os mais fortes, elegantes e o prestigio de apresentar-se bem. Diante disso, nos perguntamos, cómo anunciar o Evangelho como uma opção de vida? Despertar o sentido de comunidade não é uma tarefa simples na atualidade, pois os valores sócio-culturais contagiam a comunidade cristã. Nestas mudanças rápidas, a comunidade missionária tem o papel profético e anunciador de uma nova visão de vida, testemunhando, aqui e agora, a presença do Reino de Deus.
Viver e assumir um estilo de vida evangélica neste ambiente desperta medo de sentir-se fracassado, de estar perdendo tempo, de ficar sem promoção social e marginalizado. Por isso, quando falamos de VRC, o testemunho deve ser comunitário, como elemento principal na evangelização transformadora. A comunidade é a fortaleza da experiência missionária. Quando a comunidade deixa de ser fermento, faz-se necessário o despertar profético de quem permanece vigilante. Na historia do povo de Deus, os profetas estavam sempre na contramão da pratica sócio-política e religiosa.
OS ACONTECIMENTOS FALAM DE DEUS
Quando encontramos realidades-limites e desafiadoras, a luta para sobreviver supera os medos e os temores. Nesta semana, fomos visitar os doentes da comunidade e começamos pelos que estavam no hospital. Ali encontramos uma jovem com leucemia. Ela revelava um semblante de esperança e confiança. Ela já havia passado pela quimioterapia, mas isso não quebrou o seu animo. Ela nos acolheu com um sorriso no rosto, falando serenamente de sua doença, que faltava pouco para sair daquele quarto de hospital. Enfrentava o sofrimento com sobriedade, com consciência de sua condição, mas com esperança.
Ao sair de encontro com os fragilizados da vida, acabamos surpreendidos pelo valor como muitos/as enfrentam essas situações-limites. Medem a vida pela capacidade de resistir, de superar e encontrar luzes nos pequenos acontecimentos como sinal de que as coisas estão melhorando. Por isso, não se cansam e não desanimam com a condição em que vivem. Nossa comunidade religiosa msc, aqui, é bastante débil pela quantidade de problemas que temos de enfrentar e desafios por construir. Mas, não têm faltado leigos/as que se juntam a nós no trabalho. Alguns/as carregam esta pratica de outros trabalhos anteriores que já semearam sementes neste chão, e outros acabaram entrando pelo testemunho. Ou seja, os sinais de que Deus atua no meio das situações são evidentes, mas não basta. É necessário encontrá-lo e alimentar a fé nesta relação.
A comunidade, para ser missionária, depende de vários movimentos que ocorrem na dinâmica dos acontecimentos: de um lado, as comunidades eclesiais que não estão livres dos pecados sociais que destróem as relações fraternas; por outro lado, a vida comunitária religiosa também cai nas mesmas tentações do narcisismo e da acomodação.
Hoje, uma das praticas mais difíceis na vida de grupo é sentar para avaliar porque o individualismo supõe que ninguém deve prestar conta a ninguém. Temos medo de enfrentar nossas debilidades porque nosso espelho de cada dia nos da uma visão bonita de nossa vida, escondendo o lado escuro da nossa infidelidade ao Evangelho.
CONCLUINDO
Sentimos que a situação não está fácil. Sem dúvida, o testemunho do Evangelho é urgente. São muitas as contradições que confundem qualquer mente desatenta. A complexidade da vida faz com que nos acomodemos e deixemos o barco andar sem saber para onde vamos. Entretanto, é hora do silencio e da escuta atenta aos sinais de Deus na historia.
Pe. Antonio Carlos Meira, mSC é missionário no Equador.