Revista de Nossa Senhora
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Evangelizar a partir dos pobres

Publicado em 1 de setembro de 2011 / Edições > Setembro - 2011 >

Fé, trabalho e muita bênção

No meio de tanto pó, grupos de mulheres e crianças caminham pelas estradas, atravessando os montes, carregando lenha. São os últimos bosques de eucaliptos que estão tirando desta região semi-deserta de Palmira. Uma região onde nunca houve florestas naturais devido à altitude. Muita gente, antes da chegada do gás, cozinhava com palha seca do campo. Hoje o gás facilitou a vida e os restos de bosques plantados ainda esquentam a casa nas madrugadas frias.

As mulheres passam sentadas ao lado de um fogão, que é feito de uma mistura de pedra com pedaços de ferro, para manter o fogo aceso. Como a palha queima rápido, elas estão alimentando o fogo constantemente com o capim. A vida no alto das montanhas passa a ser uma aventura: além do frio constante, as dificuldades causadas pelas distâncias e as necessidades fizeram dos indígenas homens e mulheres fortes. Situações difíceis que exigem adaptação e confiança sobre-humana.

Em geral, as pessoas são muito religiosas. A fé se expressa nos sinais e cuidados com a vida de uma criança, por exemplo. A proteção para um recém-nascido não passa pela higiene, por mais que se insistia nesse ponto. A confiança e a esperança estão em Deus para que livre os pequenos das enfermidades. Numa celebração com muitos batizados e alguns matrimônios, a maioria das pessoas está à espera da água benta antes de sair da igreja. Quando termina a celebração, ao sair do altar, é comum a formação de uma fila de crianças de uns seis anos carregando outras menores amarradas nas costas que chegam correndo para pedir a bênção.

Viver com confiança

O tema da religião no mundo indígena é complexo e delicado. Sua maneira de viver passa por uma cosmovisão das crenças nos perigos que estão nas montanhas, como na esperança num Deus que sempre é uma ameaça com seus castigos. É uma relação de temor e confiança, proteção e maldição. Nas alturas, por exemplo, há muitos casos de gente que morre vítima de raios, com as chuvas que vêm do oriente amazônico. As mortes são interpretadas como destino, fatalidade para a vida humana.

Por outro lado, Deus também é amigo e presenteia com a chuva, a vida das crianças, como a defesa da saúde. As montanhas também esperam sacrifícios, oração e respeito sagrado, como podem, também, representar castigo para as pessoas. Há dois ou três anos que um catequista está com a filha doente e ninguém tira de sua cabeça que ela dormiu numa destas montanhas e foi castigada por um espírito mau. A solução, para ele, está nos curandeiros.

Há que passar pelas provas

Tivemos uma assembleia de catequistas, em Palmira, na qual se conversou de tudo, desde a razão pela qual ainda precisamos do sacerdote para fazer um casamento, como as crises que eles vivem nos seus lugares: falta apoio da comunidade para certos trabalhos de evangelização; reuniões dominicais parecem difíceis para alguns catequistas porque não conseguem atrair mais gente. As divisões políticas implantadas pelo governo repercutem na vida das lideranças indígenas.

A mentalidade nas comunidades está muito misturada com uma série de mudanças que acontecem hoje em dia. Assim como a comida vai deixando de ser cozida no fogão de palha, substituído pelo gás, também a juventude vai exigindo mudanças nos métodos de ensino e nas formas de celebrar. A realidade vem carregada de contradição. Internamente, muitos permanecem num esquema mental de celebrar com uma lista de coisas tão grande que se levam horas e horas para realizar uma celebração. Outras mentalidades querem menos palavras e mais animação. Nisso os evangélicos colocam problemas para os catequistas, dizendo que não valem nada porque não mudam a maneira de organizar e celebrar. Alguns lutam intensamente para não cair no desânimo.

Evangelizar a partir dos pobres

Esta região está marcada pela pobreza. A agricultura familiar ainda proporciona algo para viver. Na feira ou no mercado os produtos agrícolas e animais não têm preço. O indígena ainda carrega o estigma marginal de que pouco vale socialmente. É explorado no trabalho. Na vida cotidiana, as mudanças da sociedade chegam como um vendaval. Os terrenos comunitários estão sendo divididos, família por família, para evitar problemas. Cada um cuida do seu pedaço de chão. A realidade impõe a migração como forma de vida; as famílias ficam debilitadas e as relações na comunidade perdem força.

A Igreja sempre trabalhou no meio indígena sem levar em conta as diferenças culturais. Hoje se discute muito como ser presença missionária nas comunidades. Nem sempre se chega a um consenso sobre este assunto. Quando o assunto era ajudar com o desenvolvimento econômico, parece que as coisas tinham um rumo mais claro. Porém, entrar na realidade cultural, pouco se avançou nesses anos. Respeitar suas tradições e ritmos próprios, ainda permanece um grande desafio.

Pe. Antonio Carlos de Meira, mSC, é missionário no Equador.

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