Muitas vezes ouvimos dizer que a cruz de Cristo nos salva. Sem dúvida, é verdade, mas devemos entender bem a afirmação, pois um pedaço de madeira sobre o outro não pode salvar ninguém. Trata-se da cruz entendida como símbolo de toda a vida, morte e ressurreição do Senhor. O mesmo se deve dizer da expressão “o sangue de Jesus nos salva”. Sangue, na língua de Jesus, representa a vida. É o mesmo que dizer: a vida de Jesus nos salva.
Aquele que foi crucificado, morto e sepultado não foi outro senão o inocente e justo Filho de Deus que se colocou a serviço dos pobres e excluídos, anunciando-lhes o Reino de Deus. Sua vida de total despojamento era a transparência do amor gratuito e incondicional do Pai. Por amar, Ele abraça as contradições, os conflitos e as perseguições por causa de sua missão. Portanto, o que nos salva é o amor de Deus e não seu sofrimento.
A morte de Jesus na cruz é um sacrifício. Infelizmente, a palavra assumiu o significado de dor. Na realidade, sacrifício significa entrega, disponibilidade para o outro. A vida toda de Jesus é entrega nas mãos do Pai, entrega a favor dos irmãos e irmãs, disponibilidade para servir onde houver alguém sofrendo. Sem dúvidas, essa entrega e disponibilidade, num mundo violento e marcado pelo pecado, devem assumir as dificuldades e contradições da vida.
Somente Aquele que trilhou o nosso caminho, abraçou a dureza cotidiana da existência, riu e chorou, trabalhou e descansou, fez a experiência da exclusão, da injustiça e desceu ao mais baixo da humilhação, da tortura e da morte está apto a nos consolar. Ele verdadeiramente desceu ao mais fundo do poço da existência humana. Por isso, muitos que sofrem encontram um pouco de alívio e consolo diante de sua imagem como Cristo morto e crucificado.
Quando dizemos no Credo que Cristo foi morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos, estamos nos referindo à sua morte de fato. Sofre e morre o “verdadeiramente homem e Deus” apaixonado pela humanidade, interessado pela nossa vida, comprometido com nossa felicidade e salvação. A morte é o destino de todo ser vivo. No entanto, a morte de Jesus é provocada. Sobre Ele é descarregada toda a violência e agressividade humana por aqueles que não aceitaram as mudanças, em suas vidas e na sociedade, propostas pelo Reino de Deus. Sua morte na cruz, abandonado por todos, trouxe-lhe a sensação de ter sido abandonado até mesmo pelo Pai. Cristo morre como um fracassado, rejeitado por todos com um grito histórico: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mc 15,34)
Pe. Paulo Roberto Gomes, mSC é Teólogo e Pároco da Comunidade S.Paulo