
A cada momento estamos diante do juízo de Deus. No entanto, julgamento – na Bíblia – não se assemelha a um tribunal humano, no qual nós somos o réu. Trata-se de discernimento, clareza, percepção e transparência. Como criaturas, somos limitados em nossa consciência e liberdade, não sabemos tudo e não conseguimos prever toda consequência de nossos atos. Não podemos tudo. Somos condicionados e determinados pela educação, pela família, pelo meio social, pela nossa condição de seres carentes, imperfeitos e inacabados, pelo nosso inconsciente. Somos carnais. Na Bíblia, carne significa criatura humana e ao mesmo tempo fragilidade.
Temos a capacidade de decidir e escolher como seremos, mas sempre com a liberdade situada num contexto de múltiplas influências e condicionamentos. Somos finitos, imperfeitos, marcados pela ambiguidade e pelo pecado. Pecado refere-se a tudo o que nos desumaniza, ao fechamento a Deus e ao outro, ao mal infligido a nós e às pessoas, ao meio ambiente e à sociedade através de nossas relações interesseiras e egoístas.
Quando tomamos uma decisão, agimos, fazemos o bem ou o mal, dizemos alguma coisa, nos relacionamos com as mais diversas pessoas, não conseguimos perceber a nossa influência, as consequências do que fazemos sobre os outros e sobre o nosso mundo. Uma simples palavra, gesto ou atitude repercute para o bem ou para o mal. Lembro-me de um fato acontecido: uma pessoa comentou com a outra sobre uma celebração eucarística no final de semana em que se abordava o tema da abertura e do fechamento usando como símbolo uma chave. Esta segunda pessoa comentou com uma terceira. Isto ressoou tão forte e positivamente sobre a terceira pessoa, que ela voltou para a Igreja depois de um bom tempo de afastamento. Não sabemos o que podemos provocar no sentido positivo ou negativo na outra pessoa como fruto de nossas relações. Podemos aproximar as pessoas de Deus ou afastá-las definitivamente. Podemos causar-lhes um grande bem ou um grande mal.
Dizer que Deus virá julgar os vivos e os mortos, significa afirmar: Deus virá nos dar a clareza, o discernimento, a percepção e a transparência a respeito de todos os nossos atos, sobre a validade de nossa vida, a repercussão de nossas atitudes e palavras. O que somos tornar-se-á claro.
O Deus que virá julgar/ajudar a discernir é o Deus Pai de Jesus Cristo. Um Deus de amor e carinho, beleza e compaixão, misericórdia e ternura. Alguém que nos envolve em sua bondade e deseja que o ser humano tenha vida em plenitude, seja feliz e se realize como a obra prima que Ele mesmo criou. Portanto, o julgamento ou discernimento do juízo final não traz medo para aqueles que sempre viveram na luz, na esperança. Traz a certeza de que os verdugos não triunfam sobre a vítima e desmascara toda falsidade e toda hipocrisia. Torna o obscuro revelado.
Pe. Paulo Roberto Gomes, mSC é teólogo e pároco da comunidade São Paulo em Muriaé , MG.