Estamos em pleno “Ano da Misericórdia”. Ano de graça como o Senhor anunciou, citando a tradição profética, quando iniciou sua vida pública lá na Sinagoga de Nazaré, conforme o evangelho de Lucas: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração,para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor.(cf. Lc 4, 18ss)”
Mais uma vez, a Igreja, através do papa Francisco, nos dá a oportunidade de reviver essa experiência maravilhosa de Deus que nos permite perceber o quão grande é seu amor por nós. Durante esse ano, teremos a oportunidade de, a cada mês, refletir um pouquinho sobre esse tema tão importante e atual. Estaremos nesta página sempre atento ao que nos propõe o documento do papa “Misericordiae Vultus”[...]
Vivemos num mundo tão complexo onde tudo parece se pautar pelo relativismo, pelo subjetivismo e pela “cultura da indiferença”, a sensação que temos é de que tudo é descartável. Neste contexto de mudanças tão violentas é a vida humana a que mais se torna vulnerável e ameaçada, principalmente a dos mais pobres. Estamos num tempo de agitação, parece que sempre estamos atrasados e nunca conseguimos viver com intensidade o tempo presente. A “verdade de nosso eu” parece ser dura de mais para ser encarada, redimida e abraçada e, assim, vamos deixando nos entorpecer por tantas coisas novas e por tantas informações que surgem, que preferimos viver “distraído” e meio fora do real.
Mas, como em toda “distração” tem um pouco de “traição”, aos poucos vamos perdendo nossa sensibilidade, nossa humanidade e, o pior de tudo, vamos perdendo o sentido da nossa vida. Até a consciência que nossa vida é puro dom de Deus, a certeza de que Ele nos ama e nunca nos abandona, vai ficando como se fosse uma quimera e não uma verdade. [...]
De outro lado, absolutizamos a ciência, o econômico, a técnica e, pouco a pouco vamos relativizando e “coisificando” o ser humano. Já não vemos mais como nossos irmãos e filhos de Deus, mas como objetos. A pessoa só tem valor se for um consumidor. Caso contrário, será apenas um risco nas estatísticas ou “algo”, (não alguém) que poderia ser descartável. Não produz, não rende, não tem valor…
Quando perdemos nossa capacidade de nos sentir amados e queridos por Deus, perdemos nossa capacidade de amar. Quando nos esquecemos da gratuidade de seu amor, perdemos, consequentemente, nossa capacidade de gratidão. Quando perdemos essa sensibilidade de filhos de Deus, o orgulho e a arrogância original se estabelecem e o sentido de pecado se relativiza na onda de que tudo pode, de que não existe mais verdade, mas sim versões. Acostumamos com o mal, ou pior ainda, achamos que o mal se paga com o mal e, assim, entramos numa espiral de morte sem saída. O perdão dá lugar ao ódio e a vingança vai substituindo a capacidade de reconciliação.
Francisco propõe, também, que a Igreja, à luz da sagrada escritura, um caminho para nosso crescimento na experiência de Deus e de sua misericórdia: “Redescubramos as obras de misericórdia corporais e obras de misericórdia espirituais .
Neste ano favorável, façamos uma bonita peregrinação e busquemos passar pela “porta santa” e fazer nossa experiência de contemplar e experimentar a misericórdia de Deus e assim, aprendermos a ser misericordiosos como Ele é misericordioso. Mas, não nos esqueçamos de que a primeira “Porta Santa” foi aberta no Coração de Jesus na Cruz. Pelo batismo, começamos a travessia por esse “Umbral da salvação”.
Seu Coração, sempre aberto, será sempre a porta da misericórdia a todos que acolherem seu amor e perdão. Quando se encarnou, Jesus nos mostrou que a misericórdia tem rosto e na Cruz, quando derramou seu perdão sem limites, nos mostrou que a misericórdia tem coração. Aliás, que misericórdia não é outra coisa senão um coração que se escancara para acolher e curar nossas misérias.
Então paremos um pouquinho para refletir:
Como seremos misericordiosos se não entendemos ou acolhemos a misericórdia de Deus em nossa vida?
Quais as grandes experiências da misericórdia de Deus em nossa vida?
Abram-se todas as “portas santas”, se nós não abrirmos as “portas do nosso coração”, como o Senhor misericordioso poderá entrar?
Pensemos nisso, e até o próximo mês, se Deus quiser.
Pe. Benedito Ângelo Cortez, MSC é mestre de Noviços em Itajubá (MG)